sexta-feira, 8 de abril de 2016

Portugal é pouco favorável ao empreendedorismo, diz estudo


Estudo Global de Empreendedorismo da Amway 2015 concluiu que só 16% dos inquiridos acham que a sociedade portuguesa é favorável ao empreendedorismo. Principal obstáculo é o medo de falhar.

Só 16% dos portugueses inquiridos para o Estudo Global de Empreendedorismo 2015 consideram a sociedade em que vivem favorável ao empreendedorismo. Esta foi uma das conclusões da sexta edição do estudo, feito pela Amway (uma multinacional norte-americana que trabalha no setor de vendas diretas) e recentemente publicado em Portugal. Um valor que colocou o país em penúltimo lugar (43º) neste aspeto, apenas à frente da Bulgária e longe da média dos 44 países onde o estudo foi realizado.
A forma como os portugueses veem a relação entre o empreendedorismo e a sociedade em que vivem é problemática e coloca entraves à atividade, afirmou Rui Baptista, presidente do Departamento de Engenharia e Gestão do Instituto Superior Técnico em Lisboa e assessor académico do Estudo Global de Empreendedorismo da Amway.
84% dos inquiridos assumiram que a sociedade onde vive não encara positivamente as temáticas relacionadas com o empreendedorismo e com o empreendedor, é desanimador. A questão que se coloca é o facto de Portugal se posicionar em penúltimo numa tabela de 44 países analisados e estar longíssimo da média global e europeia.”
“É complicado avançar com uma carreira empreendedora quando o ambiente não é positivo”, resume. Pelo que, defende, é necessário “pensar em alternativas para alterar a situação e fazer com que a sociedade portuguesa apoie ainda mais e de forma mais clara os seus empreendedores”.
O estudo, realizado pela Amway em conjunto com a Universidade Técnica de Munique e com o apoio do Instituto GfK Research, de Nuremberga (Alemanha), avaliou ainda outros dados, durante o ano de 2015, tais como a atitude dos inquiridos face ao empreendedorismo, a vontade de serem empreendedores, as motivações por detrás dessa vontade e os grandes obstáculos que consideram existir no seu país.

No Algarve, só 16% vêem o empreendedorismo com bons olhos

Mais de metade (57%) dos portugueses inquiridos manifestaram uma atitude positiva face ao empreendedorismo. Um valor que, contudo, não apenas desceu face ao ano transato, de 2014 — que se cifrava em 65% —, como continua distante da média dos 44 países analisados no estudo (onde, em média, três quartos dos inquiridos mostraram uma atitude positiva face à atividade empreendedora).
Em termos de distribuição regional, a larga maioria (84%) dos inquiridos que residem no Algarve não veem o empreendedorismo como uma atividade positiva, ao contrário do que acontece nas regiões Norte, Centro, Lisboa e Alentejo, onde 59%, 57%, 60% e 60% dos inquiridos, respetivamente, afirmaram ver a atividade como favorável.
A atividade empreendedora é vista com bons olhos sobretudo pelos portugueses com menos de 50 anos — 61% dos portugueses com menos de 35 anos e 58% dos portugueses com idade compreendida entre os 35 e os 50 anos consideram-na positiva. Contudo, mesmo entre os portugueses com idade superior a 50 anos, cerca de metade (51%) mostrou-se favorável ao empreendedorismo. Esta recetividade é maior em portugueses com estudos superiores (entre estes, 66% têm atitude positiva) do que entre aqueles cuja escolaridade não ultrapassa o ensino secundário (entre estes, 56% veem-na com bons olhos).

Vontade de ser empreendedor em linha com a média europeia

À pergunta “Consegue imaginar-se a começar um negócio?”, 39% dos inquiridos portugueses afirmaram que sim, um valor bastante próximo da média europeia, já que, nos 31 países europeus incluídos no estudo, 38% dos inquiridos, em média, mostraram-se recetivos à ideia de se tornarem empreendedores.
A maior parte dos portugueses que responderam afirmativamente à pergunta tem menos de 35 anos: 45% dos portugueses que responderam ao inquérito e que estão abaixo desse limite etário afirmaram imaginar-se como empreendedores. O valor desce entre os portugueses com idade entre os 35 e os 50 anos (38%) e com idade superior a 50 anos (32%).
Outro dos fatores a influenciar a predisposição dos portugueses para o empreendedorismo é a escolaridade: 57% dos portugueses com estudos superiores mostram-se recetivos a essa possibilidade, um valor que deixa de ser maioritário (37%) entre os que não os possuem.
Em termos regionais, é entre os residentes das regiões Centro (46%), Alentejo (42%) e Norte (41%) que se encontram os portugueses com maior recetividade à ideia. Em Lisboa, apenas 33% dos inquiridos se veem como potenciais empreendedores, valor que, no Algarve, desce para os 12%.

Ser empreendedor para “ser patrão”. Não o ser por “medo de falhar”

Em Portugal, quase metade (45%) dos que se mostraram recetivos a lançar um negócio afirmaram que esta vontade se devia, em parte, à vontade de serem o seu próprio patrão: uma motivação que predomina na maior parte dos inquiridos dos 44 países analisados no estudo.
Já 30% dos inquiridos afirmou que queria lançar um negócio para regressar ao mercado de trabalho. Outros 30% fazem-no por realização pessoal. No caso do regresso ao mercado de trabalho, os portugueses foram os únicos a apontar esta motivação como a segunda principal para a predisposição para o empreendedorismo. Portugal, recorde-se, acabou 2015 com uma taxa de desemprego de 11,8%, enquanto a taxa de desemprego jovem se cifrou em 31%.
Quanto a obstáculos para empreender, mais de dois terços (70%) dos portugueses afirmou que o principal é o medo de falhar. Seguiram-se o receio da crise económica (46% dos inquiridos apontaram-na como obstáculo), os encargos financeiros que poderiam resultar da atividade (38%) e o medo do desemprego (25%).
general manager da Amway Iberia, Monica Millone, também comentou os resultados, preferindo destacar os dados positivos: estes mostram “o grande potencial que existe em Portugal”, defende. Para alterar a perceção que os portugueses têm da forma como o seu país olha para o empreendedorismo, é preciso que “as instituições, as empresas privadas, o governo, assim como a sociedade em geral” continuem a investir:
A Amway já realiza este estudo há seis edições e é percetível que, apesar de a atitude descer um pouco nos últimos anos, o número de pessoas que procura criar o seu negócio tem-se mantido estável. Isto é um sinal do grande potencial empreendedor que existe em Portugal, mas é preciso dar ainda mais apoio às pessoas, dar-lhes formação e quebrar tabus e são exatamente as instituições, empresas privadas, governo, assim como a sociedade em geral, que têm de continuar a investir.”
O estudo da Amway foi feito através de entrevistas one-to-one e contactos telefónicos, tendo sido utilizada “uma inovadora métrica de análise ao espírito e comportamento empreendedor, baseada na teoria do comportamento planificado do professor Icek Azjen”, segundo explica a empresa, em comunicado.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

EY escolhe empreendedor do ano 2016


Seis finalistas concorrem ao prémio Entrepreneur of the Year. Vencedor será conhecido hoje numa gala no Meo Arena.

A EY lançou o desafio de encontrar o melhor empreendedor do ano em Portugal e, ao fim de alguns meses, chegou a altura de escolher o vencedor. Dos seis finalistas, haverá um vencedor do prémio Entrepreneur of the Year (EOY), que é anunciado hoje, dia 7, numa gala que terá lugar no Meo Arena, e representará Portugal na final mundial a realizar no Mónaco. 
Entre os finalistas estão três empresas tecnológicas, uma de mobiliário, uma agro-industrial e outra de vestuário, seleccionadas de um total de 21 projectos empresariais. Concorrem a este prémio Bento Correia e Miguel Leitmann (Vision Box), Pedro Sinoga e Ricardo Mendes (Tekever), Luís Moura e Silva (WIT Software), Carlos Aquino (Aquinos), João Ortigão Costa (Sugal) e Malik, Moez, Salim e Rahimo Sacoor (Sacoor Brothers).
"O empreendedorismo está de boa saúde em Portugal" e este prémio é a prova disso, assume João Alves, presidente da EY Portugal, testemunhando assim o trabalho realizado pela consultora ao longo das cinco edições do prémio já realizadas. A massa cinzenta existe nas empresas, assim como a vontade de inovar dos empreendedores e das suas equipas, defende o responsável da EY. "Espírito de inquietação, vontade de fazer, capacidade de liderar e uma resiliência perante a adversidade têm sido a fonte de inspiração dos candidatos a este prémio", sublinha João Alves.
Em eventos anteriores, o Prémio EOY já teve ilustres vencedores: Manuel Alfredo de Mello, presidente da Nutrinveste, venceu na última edição. O primeiro a arrecadar este prémio, já lá vão dez anos (2006), foi Belmiro de Azevedo, que chegou a ser escolhido para integrar o júri da edição internacional. Mas do rol de empreendedores vencedores constam ainda os nomes de Carlos Martins e Jorge Martins da Martifer, Carlos Moreira da Silva da BA Glass e Dionísio Pestana do grupo Pestana.
Ao contrário das edições anteriores, em que venceram grandes empresas, este ano predominaram as candidaturas de empresas de média dimensão, que se reflectem nos finalistas, com forte presença do sector tecnológico. "O lote de concorrentes deste ano é um bom espelho da evolução recente da nossa economia, com um forte pendor de empresas tecnológicas que se combina com projectos de muito sucesso nos sectores agrícola, industrial e dos serviços", explica João Alves.
Também a participação feminina foi maior este ano. Nesta sexta edição, 20% dos candidatos correspondem a projectos em que pelo menos um deles é uma mulher.
O júri da edição deste ano é presidido por Miguel Cruz, presidente do IAPMEI. São também membros do júri Francisco Veloso, director da Católica-Lisbon School of Business and Economics, João Talone, fundador da Magnum Capital, Manuel Alfredo de Mello, presidente da Nutrinveste, enquanto vencedor da última edição do prémio, Ana Pinho, presidente da administração da Fundação de Serralves, e José João Guilherme, administrador do Novo Banco.
Fundador do Cirque du Soleil foi um dos vencedores mundiais
O Prémio Empreendedor do Ano da EY foi criado nos Estados Unidos da América há 30 anos e mantém o objectivo inicial: reconhecer e incentivar os empreendedores que se distinguem pela criatividade, pelo investimento pessoal num projecto de empresa, pela visão e pelo sucesso alcançado. Para os candidatos, é uma oportunidade única para desenvolver o 'networking' de negócio.
Desde 1986, ano em que foi lançado, o EOY foi sendo alargado a todos os continentes. Líderes como o fundador do Cirque du Soleil, Guy Laliberté, ou o fundador da Actelion, Jean-Paul Clozel, já venceram o prémio a nível internacional.
Mohed Altrad, o último vencedor em 2015, tem uma história de vida que parece saída de um filme de Hollywood: nasceu numa tribo beduína na Síria e conseguiu vencer o destino de se tornar pastor no deserto para acabar por se doutorar em França e vir a criar uma empresa, o Altrad Group, hoje com 170 empresas sob o seu comando, 17 mil empregados, dois mil milhões de dólares anuais em volume de negócios e 200 milhões de lucro.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

João Vasconcelos: apoiar o empreendedorismo é apoiar a criação de postos de trabalho


O secretário de Estado da Indústria destacou esta quarta-feira que a prioridade do Governo é a criação de emprego e que ajudar a nascimento de start-ups é ajudar à criação de postos de trabalho. João Vasconcelos falou ainda sobre a Indústria 4.0, uma "revolução onde ser português não é um problema".

"A prioridade do Governo é a criação de emprego", assinalou João Vasconcelos, secretário de Estado da Indústria, no início da sua intervenção na conferência Ativar Portugal, promovida pela Microsoft. Tendo em conta que cerca de metade dos empregos criados no país são gerados através de empresas jovens, o governante assinalou que ajudando empresas jovens a constituírem o seu negócio é uma forma de ajudar ao lançamento de postos de trabalho.

O programa Startup Portugal, a estratégia nacional para o empreendedorismo, lançada no passado mês de Março, foi também abordado por João Vasconcelos. O governante falou nomeadamente do Programa Momentum, que visa permitir a um licenciado, que tenha beneficiado de uma bolsa de acção social na Universidade, criar a sua empresa. Para isso, é-lhe facilitada residência, espaço de incubação e uma verba mensal para fazer face às despesas pessoais.

A Zona Franca Tecnológica, uma das medidas inscritas no Startup Portugal, foi também mencionada. A medida prevê a criação de legislação e regulamentação que atraia sectores inovadores. O Governo quer atrair sectores inovadores, na sua fase mais embrionária, quando estão a ser desenvolvidos e antes de serem projectos empresariais. Assim, quando estes se tornarem numa empresa, possam ficar em Portugal.

"Estas 15 medidas são para apoiar toda a cadeia de uma start-up. Isto é para todos os sectores [da actividade económica]. O Startup Portugal quer trazer para Portugal algo que já atingimos em Lisboa, Porto e Braga para todo o País", disse João Vasconcelos na conferência Ativar Portugal.

O Web Summit, que decorrerá em Lisboa em Novembro, foi também um dos pontos focados. E o evento vai ser, defendeu o governante, "um bom momento para todos". "É a melhor oportunidade para mostrar um Portugal diferente ao mundo. Estamos a preparar muitas coisas para antes e depois do Web Summit", acrescentou. O objectivo do Governo é que os efeitos do evento não se resumam aos dias do evento, mas que possam ter efeitos alargados na economia.

"Onde ser português não é um problema"
João Vasconcelos, durante a sua intervenção, abordou também a Indústria 4.0, que considera ser uma revolução que está em curso. "Esta é a revolução onde ser português não é um problema. A nossa localização geográfica não interessa. É a primeira vez que, numa revolução industrial, Portugal, devido aos investimentos [ao nível tecnológico que já realizou]" pode ter a ambição de ser parte dos líderes deste movimento, sublinhou.

Destacando que esta revolução está a mudar as fábricas e muitos modelos de negócios, o secretário de Estado assinalou que o Governo está a lançar um debate com várias empresas internacionais a forma como as indústrias portuguesas podem integrar a economia digital.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Empreendedores agrícolas vão ter guia sobre como lançar negócio

 

Documento foi elaborado pela Inovisa, incubadora do Instituto Superior de Agronomia, e é uma iniciativa da McDonald’s.


Um guia para empreendedores agrícolas vai ser lançado na terça-feira em Lisboa e é o primeiro dedicado ao sector, com informações sobre modelos de negócio, burocracias necessárias para abrir uma empresa ou financiamento. A iniciativa é da McDonald’s e o documento, em formato digital, foi elaborado pela Inovisa, a incubadora de empresas do Instituto Superior de Agronomia (ISA).

Luís Mira, professor e presidente da Inovisa, explica que o ponto de partida foi criar um documento completo, inspirado no existente Guia do Empreendedor do IAPMEI, mas adaptado à realidade agrícola e aos novos conceitos de inovação, como a lean inovation. Neste modelo dá-se importância ao teste do produto no mercado: a ideia inicial vai sendo melhorada à medida dos resultados que se obtém junto dos potenciais clientes, numa metodologia que, diz Luís Mira, “é muito mãos na massa”.

Além da componente teórica, o guia inclui vídeos com casos práticos de parceiros da McDonald’s, como a Vitacress, produtora de alfaces lavadas e embaladas que fornece a cadeia de restauração, ou a Campotec, que fornece, por exemplo, o tomate fatiado. A MacDonald’s lançou a MBIA (McDonald's Business Initiative for Agriculture) para produzir e partilhar conhecimento entre os agricultores e aproximá-los do “universo de empreendedorismo nacional”. Na terça-feira haverá uma espécie de TED Talk onde estarão empresas já instaladas, como a Terrius, um agrupamento de agricultores da Serra de S. Mamede que promove os produtos locais, e empreendedores que vão divulgar as suas ideias de negócio.

“Tenho dado apoio a jovens agricultores numa formação – são pessoas que já estão preparadas – e o normal é não terem pensado de forma estruturada nos modelos de negócio e nas opções técnicas que têm. Não há um pensamento de um modelo de negócio”, ilustra Luís Mira, para se referir à necessidade de um guia orientador.

O professor do ISA diz que, a par das empresas já instaladas e com dimensão, há outras novas a surgir, “muito ligadas ao regadio e ao Alqueva, onde há disponibilidade de água e boas condições para produção”. Os novos negócios incluem a produção intensiva não só de frutos secos (amêndoa), como de olival. Há ainda um “empreendedorismo ligado à prestação de serviços à agricultura”, relacionados com automatismo ou digitalização de processos. “A IBM e a Google estão a olhar para o sector, que tem imensas oportunidades por explorar na área da robótica e automatismo”, detalha.
Candidaturas para a 15ª Call For Entrepreneurship da Portugal Ventures abrem dia 18


 Candidaturas para a 15ª Call For Entrepreneurship da Portugal Ventures abrem dia 18

As candidaturas para a 15ª Call For Entrepreneurship, da Portugal Ventures, arrancam dia 18 de Abril. Através deste programa, o organismo já investiu em 58 start-ups.

A fase de candidaturas para 15ª Call For Entrepreneurship, programa de investimento para projectos de base científica e tecnológica nas fases de seed e start-up da Portugal Ventures (sociedade pública de capital de risco), começam no próximo dia 18 de Abril e prolongam-se até ao dia 19 de Maio. Entretanto, está aberto o pré-registo para esta "Call".

Os projectos para serem elegíveis para esta "Call" têm de ser oriundos das seguintes áreas: tecnologias de informação e de comunicação, electrónica e web, ciências da vida, turismo e recursos endógenos, nanotecnologia e materiais. Os projectos que forem escolhidos beneficiarão de um investimento de até 750 mil euros.

Nas edições anteriores desta iniciativa, de acordo com o comunicado enviado às redacções, 2960 empreendedores "registaram-se no site da Portugal Ventures, resultando na apresentação de 964 candidaturas". E no âmbito desta iniciativa foram apoiadas 58 start-ups no âmbito desta iniciativa.

Através da Call For Entrepreneurship, a Portugal Ventures pretende investir cerca de 20 milhões de euros por ano.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Interior de Portugal, Madeira e Açores precisam de startups

 

O secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos, afirmou que o interior do país e as ilhas precisam de incubadoras de 'startups' e avançou que quer fortalecer o relacionamento com Espanha através das regiões do interior.

"Há regiões que precisam de incubadoras. Há vários casos em que há lacunas, por exemplo no interior e nas ilhas [Madeira e Açores]. Queremos fortalecer o relacionamento com Espanha através das regiões do interior", disse João Vasconcelos, que foi diretor executivo da Startup Lisboa antes de exercer funções no Governo, em entrevista à Agência Lusa.

No início de março, o Governo lançou a Startup Portugal, uma estratégia nacional com quinze medidas para o empreendedorismo, uma delas precisamente a criação de uma Rede Nacional de Incubadoras.
"São precisas mais incubadoras de agroalimentar, do mar, de energia. Ao fazermos a rede nacional vamos saber as regiões onde há lacunas e os setores em falta", disse João Vasconcelos.

O secretário de Estado sublinhou o papel das autarquias: "A partir do momento em que os municípios fazem parte deste movimento tudo muda, porque em termos de 'startups' [empresas em início de atividade] estamos a concorrer entre cidades e regiões com o resto da Europa".

A estratégia lançada pelo Governo visa criar e apoiar o ecossistema à escala nacional, atrair investidores, cofinanciar 'startups', apoiar as 'startups' portuguesas nos mercados externos e implementar as medidas públicas de apoio ao empreendedorismo.

João Vasconcelos falou da evolução das incubadoras em Portugal e de que como estas passaram de ninhos de empresas, com rendas mais baixas, serviços administrativos e salas de reuniões partilhadas, nos anos 80 e 90, para outras de base mais científica, quase todas ligadas às universidades e para as mais recentes, já de apoio a negócios independentemente de serem científicos ou não, como a Startup Lisboa, a Startup Braga ou mais recentemente a Startup Santarém.

"Estas incubadoras estão muito associadas às câmaras ou aos governos regionais, no caso dos Açores e da Madeira. Estão muito associados a um modelo de negócio onde não associam o empreendedorismo só à ciência ou ao conhecimento. A Padaria Portuguesa provavelmente criou mais postos de trabalho do que outras empresas de natureza científica", disse.

A Made In, em Famalicão, é também uma incubadora para o setor têxtil, e a Open é uma incubadora industrial no setor dos plásticos e moldes, na Marinha Grande, lembrou.

Segundo João Vasconcelos, o que caracteriza estes espaços, além de uma renda um pouco abaixo do preço de mercado, é a existência de mentores e o acesso a investidores e eventos, que permitem às empresas saber o que andam todos a fazer.

"Quando um comete um erro os outros aprendem todos lá no prédio, quando um deteta uma oportunidade os outros também aprendem", disse, contando que quando estava na Startup Lisboa chegou a observar a reação de investidores que vinham dos EUA ou de Londres ao depararem-se com várias empresas no mesmo espaço.

"Quando [o investidor] percebia que estava num prédio com mais 50 empresas, almoçava com uns, jantava com outros, fazia 'surf' com outros. A vantagem de estar numa comunidade é isto", disse.

sábado, 2 de abril de 2016

“O empreendedorismo traz tudo menos estabilidade”

 

Com uma experiência acumulada de 20 anos como empreendedor, Nuno Machado Lopes escreveu o livro Tudo Mudou, Novamente, em que procura ser uma voz lúcida e contracorrente em relação ao “impiedoso mundo do empreendedorismo” 

 

Ao longo de duas décadas, Nuno Machado Lopes foi escrevendo notas, para seu uso pessoal, das lições que foi aprendendo como empreendedor e mentor de mais de 150 start-ups portuguesas e estrangeiras. Uma matéria-prima que serviu para a escrita do livro Tudo Mudou, Novamente, que não pretende ser um manual completo sobre empreendedorismo, mas que acaba por transmitir uma visão crítica que tempera o atual clima de euforia que se vive em volta da criação de negócios de crescimento acelerado.


O que o motivou a escrever este livro?
Pensei dar um contributo para tornar a experiência dos empreendedores mais equilibrada, tirando partido da minha vivência de 20 anos como empreendedor. E também quis desmistificar Silicon Valley, onde vivi durante algum tempo. Outra motivação resultou da necessidade de valorizar o quanto difícil é criar uma empresa. Isto porque não quero que as pessoas caiam no erro de avançar para a criação de uma empresa por estarem desempregadas. Às vezes é a pior coisa que podem fazer, porque o que precisam é de estabilidade na vida. O empreendedorismo traz tudo menos estabilidade. Esta conversa existe nos bastidores do ecossistema, mas o que sai para fora é uma visão demasiado otimista. Outra ideia que quis demonstrar ser errada é quando se diz que a tecnologia cria emprego. Pelo contrário, destrói emprego. Devemos enfrentar os grandes desafios na sociedade e não mascará-los, nem induzir as pessoas em erro.

Mas hoje é muito mais fácil e menos arriscado criar uma empresa do que era há alguns anos. Há ecossistemas que ajudam a ter sucesso…
Sim, a barreira de entrada é muito menor. Se virmos a coisa de forma linear, hoje é mais fácil. Há mais informação. Criar um site na Internet chega a ser gratuito no primeiro ano. A diferença é que agora há muito barulho e muita concorrência. Daí que hoje seja mais difícil ser empreendedor. Isto porque há mais dimensões. A pessoa sente-se muito sozinha. Por outro lado, celebrar o falhar não é intelectualmente honesto, independentemente de se aprender. Nos EUA até há conferências em que as pessoas vêm confessar os falhanços. É uma ideia que é promovida pelas relações públicas de Silicon Valley. As start-ups que têm sucesso são uma percentagem tão pequena que o empreendedorismo chega a ser uma doença. É muito irracional ir para algo que sabemos que irá falhar. O empreendedor tem momentos de ilusão em que não toma consciência dos riscos que está a assumir.

Este ambiente favorável às start-ups é um contraponto à mentalidade portuguesa conservadora de aversão ao risco?
A questão não se coloca apenas em relação a Portugal. É uma questão da Europa. Deste lado do Atlântico somos mais conservadores que nos EUA. Mas não é uniforme: nos países do Sul da Europa dá-se muita importância à família e isso tem consequências quando embarcamos na jornada do empreendedorismo, pois as primeiras coisas a sofrer são as relações. Em Inglaterra, a pessoa sai de casa aos 18 anos, já em Portugal os jovens ficam às vezes até aos 30 anos ou mais, o que também tem um lado positivo.

Há a ideia de que os Estados Unidos estão sempre a fazer disrupções tecnológicas e a Europa está a travar. Quem está certo?
Como europeu, sinto que é bom haver alguém a olhar pelos meus direitos, não a travar a inovação e a tecnologia, mas a colocar algumas questões. Nas aplicações para telemóveis, vemos esta questão da utilidade versus a privacidade: quanto mais utilidade queremos de uma app, de mais privacidade temos de abdicar. Acho que há um limite. Podemos ser induzidos a abdicar de demasiada privacidade. Por outro lado, instalou-se a convicção de que o empreendedorismo podia fazer disrupções de tudo: leis, regras, princípios. Isso cria um empreendedor que acho que não é saudável para a sociedade. Devemos ter cada vez mais uma voz crítica, porque estamos a entrar num período complexo. Vimos o impacto que teve no mercado financeiro a entrada de peritos em matemática, que criavam produtos cujos efeitos não eram conhecidos. Por isso temos de ter algum cuidado com os produtos tecnológicos, porque não sabemos que impactos irão ter. Vemos uma discussão errada sobre a Uber: o carro limpo e o chauffeur de fato versus o taxista mal-educado e o carro sujo. Essa não é uma discussão válida. Mais importante é saber quando a Uber se torna uma utility e começa a fazer pesquisa por preço e a mudar as regras. E qual é o impacto que pode ter no emprego. Não podemos alhear-nos das consequências do que estamos a criar. Basta ver que para as pessoas que têm mais dinheiro em Silicon Valley a sua maior preocupação é a segurança. Eles têm razão para estar com medo. Já vimos no passado que as sociedades podem explodir a qualquer momento por causa das desigualdades.

Como vê as somas astronómicas que estão a ser investidas no aumento da longevidade em Silicon Valley por empresas como a Google?
Sabemos que essa longevidade não está acessível a todos. Será apenas para os white privileged male (“homens brancos privilegiados”). Viver mais parece ser uma aspiração nobre, mas mais uma vez os beneficiários serão uma pequena minoria.

O que faz tantos empreendedores europeus quererem ir para o ecossistema de Silicon Valley?
A ideia do meu livro é mostrar às pessoas que não há apenas uma alternativa. E, se embarcarem na via do empreendedorismo, dá dicas: em que moldes é que devem fazê-lo e quais as suas expectativas. Se as pessoas quiserem criar uma empresa gigante, um unicórnio, se não é importante ter tempo para si e para a família, para viajar, então direi que sim. Mas têm que ter consciência de que estão a jogar na lotaria. Isto é a diferença entre nós irmos apostar dois euros no Euromilhões, assumindo que estamos a deitar esse dinheiro fora, e aquelas pessoas que jogam sistematicamente porque acreditam que irão resolver mais tarde ou mais cedo os seus problemas financeiros. Não é muito diferente do casino, se as pessoas acreditam que irão conseguir ganhar arriscando cada vez mais. A verdade é que os indivíduos que ganham no casino são aqueles que sabem perfeitamente quais são as probabilidades, quando é que se joga e quando é que se sai. Por isso irrita-me quando se ouve dizer que o empreendedorismo é fantástico quando a pessoa está desempregada, porque se está a criar uma expectativa falsa. E isso pode ser muito perigoso.

Como mentor ou como diretor de Marketing e Comunicação da associação de empreendedorismo Beta-i, o que diz aos jovens empreendedores que acaba de conhecer?
Pergunto-lhes o que querem da vida, mesmo antes de apresentarem a ideia. E qual é a sua definição de sucesso. Quando começo a fazer algumas perguntas a pessoas que são relativamente novas e lhes digo: “Vamos supor que estavas numa empresa que faturava dois ou três milhões de euros e na qual tinhas uma margem de 30% por ano, serias feliz?, normalmente não respondem logo e basta olhar para a cara deles. Começam a imaginar o que é ter esse dinheiro e começam a sentir liberdade de poder viajar e comprar as coisas de que gostam. Mas depois, como estão neste meio, respondem: “Isso é pouco.” O nosso papel não é ouvir o que eles dizem, mas sim perceber o que estão a sentir no momento. Muitas vezes, à medida que a conversa evolui, percebemos que o que querem é criar empresas sustentáveis e com equilíbrio de vida. Por isso defendo que devemos controlar a tecnologia e não ser controlados pela tecnologia. Essas conversas servem para que os candidatos a empreendedores estejam melhor informados, para que tomem decisões conscientes. Quando ia a conferências nos EUA, tinha a sorte de ir para a zona de media, por ter um blogue. Falava com personagens como Elon Musk, fundador da Tesla, e no principio sentia-me muito insignificante. Depois aprendi a nadar na minha pista e assumi que não queria ter a vida deles. A atitude certa é ter objetivos e lutar por eles e, acima de tudo, assumir para mim o que é ter sucesso e felicidade e sentir-me bem com isso, e não estar constantemente a comparar-me com outros.

Com o aparecimento de dezenas de incubadoras em vários pontos de Portugal estaremos a cair no exagero? O empreendedorismo pode ser uma panaceia?
O empreendedorismo tornou-se uma moda, e há alguns perigos que é preciso evitar. Mas é importante salientar o bom momento que Portugal, sobretudo Lisboa e Porto, vive atualmente. Há um boom no turismo, o ecossistema de empreendedorismo está a ter reconhecimento internacional. Isto é positivo, porque se está a dar um rumo ao país. Ainda vamos a tempo de criar o nosso ecossistema, que não é Silicon Valley, mas que estará adaptado à nossa realidade.

Ainda iremos a tempo?
Acho que sim. O nosso ecossistema de empreendedorismo já tem uma parte sólida. Há pessoas com os pés bem assentes no chão. E também vamos ter o Web Summit a realizar-se em Lisboa. É um alinhamento que irá dar os seus frutos. Estou muito otimista. Outro desafio é fazer com que algumas das pequenas e médias empresas (PME) portuguesas já existentes, que nos últimos sete anos sofreram uma crise profunda, consigam tirar partido destes princípios de aceleração. Provavelmente os empresários estão abatidos psicologicamente e desatualizados. Como é que conseguimos tirar o que é bom destes modelos de crescimento rápido e aplicá-lo ao nosso tecido empresarial? Se cada empresa aumentasse uma pessoa e exportasse mais 5% a 10%, haveria uma mudança radical no nosso trajeto. É muito importante apostar em investigação e design e atrair para Portugal mais centros de investigação e desenvolvimento de multinacionais.
Onde têm falhado as empresas portuguesas?
Têm de ser mais eficientes para poderem expandir em mão-de-obra qualificada. Há sectores tradicionais, como o calçado, o azeite ou o vinho, que nos últimos anos têm vindo a ganhar prémios internacionais. Os produtos não mudaram, o que mudou foi a forma de os divulgar e apresentar lá fora. Também penso que os bancos deveriam começar a olhar para o investimento nas empresas de forma diferente. Mais do que analisar a tesouraria, deveriam olhar para o potencial dos seus produtos.

Quais são as fragilidades que identifica nos empreendedores portugueses?
Quando começam a falar comigo, seguem o guião habitual e começam logo com um pitch (apresentação curta). Interrompo e digo-lhes: “Falem-me de vocês.” A conversa acaba por ser mais do que a meia hora prevista em que acabo por fazer perguntas pessoais. Por exemplo, “quanto dinheiro é que tens disponível para o projeto?”, “de quanto necessitas para viver?”. Percebe-se que há indivíduos com circunstâncias muito diferentes. Uns têm capacidade para estar um ano a experimentar. Há outros que acabaram de ter um filho mas que estão apaixonados pela ideia de negócio. Pode ser tão válida quanto a outra (do empreendedor com dinheiro), só que tem meios para sobreviver apenas um mês. Isso permite desenhar um plano em que adiantamos uma verba mensal que será reembolsada mais à frente. Depois deste conhecimento inicial, transmito aos cofundadores que é preciso ter planeamento, metas e objetivos. Uma coisa que não fazem geralmente é um orçamento anual, muito menos o mensal e o semanal. Se pudermos avaliar os nossos desvios semanalmente, conseguimos corrigi-los e aumentar a eficácia.

Há um problema de classe entre os jovens empreendedores? É mais fácil a um de pais ricos criar uma empresa?
Há, de facto, um fosso no acesso ao empreendedorismo, mas a minha experiência diz-me que as pessoas que têm uma maior almofada cometem mais erros no início e os que não têm esse conforto financeiro não cometem esses erros e conseguem criar empresas mais estáveis.

Que área deve um empreendedor ter mais em conta?
É o mental check up. Foi aquilo que aprendi através da retroinspeção. No início, o que vemos é negro e assusta-nos. Começamos a ver as nossas falhas, mas com o tempo começamos a gerir melhor a nossa ansiedade e a ver que o stress não é uma coisa negativa.

Há empreendedores com excesso de confiança e outros demasiado inseguros. Como lidar com essa componente psicológica?
Há pessoas que aparentam ter muita confiança, mas que no fundo são extremamente inseguras. Acabam por ter as maiores quedas e lidam mal com a realidade e com a frontalidade das críticas. As que geralmente estão melhor preparadas para os desafios são as assumidamente inseguras, porque tomaram conhecimento dos seus demónios. A auto ajuda pode ser uma forma de ultrapassar estes medos. O recrutamento que se faz é péssimo. As pessoas são recrutadas pelos seus hard skills (competências técnicas) e menos pelos seus soft skills (competências comportamentais). Muitas vezes as roturas acontecem por causa dos soft skills. O empregador deve perceber também que o empregado tem de ter vida própria e pode ter problemas pessoais que afetem o trabalho. Mais vale que vá para casa resolver o problema do que ficar infeliz e a contaminar a equipa.

Nuno Machado Lopes, autor do livro "Tudo Mudou, novamente" 

B. I.
Empreendedor multifacetado

Nome
Nuno Machado Lopes

Vida
O atual diretor de Marketing e Comunicação da associação de apoio ao empreendedorismo Beta-i tem 45 anos. Licenciou-se na Universidade de Londres, esteve dois anos na Bolsa, na City, e percebeu “o que não queria fazer” (trabalhar no sector financeiro). Passou 20 anos no estrangeiro, sobretudo em Londres e em Silicon Valley, onde, como bloguista, conheceu por dentro o maior ecossistema de empreendedorismo do mundo.

Carreira
Em 2006 regressou a Portugal para criar o projeto Paradise Garage, uma pequena sala de espetáculos que ganhou fama internacional. Em 2007 criou o Kreedo, um portal de marketing em tempo real. Em 2008 fundou o restaurante lisboeta Silk Club. Nos anos seguintes criou projetos como a IG Marketing e a Out There Records (editora musical independente). Nos últimos anos, Nuno Machado Lopes tem sido docente no ISGB (Instituto Superior de Gestão Bancária) e na Universidade Lusíada e faz consultoria a empresas na área de social media.